E segue a vida com seus improvisos... Abro o peito e aperto o olho lá distante, buscando um pouquinho de nitidez. O inesperado espreita e eu dissimulo, sorriso de canto, mão que alisa a testa e corre os cabelos...Não é nervoso, é indefinição que me maltrata. Choramingo, esperneio, sorrio bastante. O indefinido impede-me de pensar e como é gostoso pensar no adiante, por mais vagos que sejam os projetos. Só preciso saber...Abri tantos caminhos que me puxam lado por lado e bamboleio na rosa dos ventos ao sabor levemente adocicado do amanhã, degustando hora a hora o por vir...Êta diazinho distante que não chega nunca, êta amanhã que manda obscura notícia, implacável, maciço, indecifrável até o dia que...Farta lambança. Colher as vezes da mais trabalho que plantar...E então segue a vida, cheia de seus geniosos improvisos...
Há séculos que sigo andando pois ainda não me canso de cadenciar passos corridos, um frente ao outro, alinhados numa direção sempre reta (pois não existem objetivos que me obriguem a desvios inevitáveis...) Sigo caminhando para frente, imbatível. Gostaria de mudar a direção, de correr para os lados, tropeçar, parar e então girar indefinidamente infinitas vezes sobre meu próprio eixo, até não mais saber me equilibrar e então seguir cambaleante sem destino por todas as direções ao mesmo tempo...A vida é justa, e se ainda não vejo justiça é por que me falta inteligência suficiente para isso. Não tenho ideologias, sou vazio delas, não tenho partido, sou contra e a favor de quase nada. Cada vez que o amor acaba me sinto mais vazio que antes, e hoje sou um grande vácuo, vazio de tudo. Sei que passa, mas por hora quero é dormir dia e noite. Quero dormir agora (!) mas não consigo. De repente minhas certezas ficaram tão distantes e confusas que gostaria de deitar e pregar meus olhos em algum ponto distante do céu, esperando que alienígenas me abduzissem para qualquer galáxia desconhecida. Ou quem sabe cai uma estrela cadente e então não faço idéia do que pediria pois meus desejos se escorreram, minhas vontades engasgaram e agora meu coração é seco, murcho, chato...Talvez um grande meteoro de saturno invadisse as órbitas e enquanto fosse queimando e perdendo altitude caminhasse apressado para colidir com minha cabeça enorme. BUM! E continuo olhando para o maldito relógio, como se ele pudesse fazer algo de bom...Só soma mais e mais segundos de meu sono indo embora e a madrugada ficando mais e mais madrugada e eu ficando mais e mais impaciente a cada novo minuto. Fecho os olhos e a mente não se cansa de relembrar sons e imagens, o travesseiro incomoda mais que ajuda, o short também atrapalha (a roupa intima já me livrei há alguns anos...), minhas unhas também enchem o saco mas com elas eu sou deliberadamente cruel. Dilacerei uma a uma com meus próprios dentes (há meses não fazia isso) mas gostaria de arrancar progressivamente então todos meus cabelos e pele e em carne viva sair gritando pela rua deserta, cobrindo de sangue meu caminho mórbido, solitário e afoito até que a agonia aumentasse e eu já sem fôlego sentasse sem pele no meio, exatamente no meio da rua e passasse a arrancar músculo por músculo, distribuindo minha carne gratuitamente para todos os cães e gatos e qualquer criatura bizarra que se encontrasse desperta até que tudo que me sobrasse fosse meu esqueleto vazio, ossos e ossos e ossos, e ai então novamente sairia correndo pela madrugada, desta vez sem rastros, sem fôlego, sem cansaço, sem sono, sem agonia, sem nada. Meus ossos nunca cansam. Por milhares e milhares de anos eu correria sem sono por todo o globo e atravessaria a pé as Américas, Europas, Áfricas e todos os continentes, vezes e mais vezes, assombrando os despertos e confundindo os insones, e então deitaria por fim na grama e olharia para o céu novamente, esperando agora uma chuva forte, dilúvio catastrófico, que me lavasse de tanto suor, sebo, tanta tristeza imunda, sujeiras da alma que é o que me sobrou. Preencheria meus espaços vazios com a água dos céus, universo que chora, e talvez então eu escorresse e após séculos e séculos de chuvas e enxurradas as águas cósmicas me desintegrassem e reduzissem à poeira universal que tudo forma. Ai talvez tivesse um propósito. Parte de tudo, meus átomos estariam distribuídos em peixes, plantas, baterias dentro de eletrodomésticos portáteis e canetas esferográficas espalhadas por todo o globo. Argh, de quem são estes átomos imundos que me formam agora?!...Novamente olho para o relógio, objeto inanimado inescrupuloso, obsceno, tedioso e irritante que ri superior de minha incapacidade de administrar as horas do dia. Gostaria de atira-lo na parede, mas a raiva que me toma me tira mais o sono e deixa muito mais distante a possibilidade de que eu venha realmente a dormir hoje. Então resignado admito a superioridade de tal objeto, o relógio, para questões relacionadas ao tempo. E canso de tentar dormir, pelo menos por agora.
Gostaria de idéias para domar a própria carne, deixar o espírito, essência, se deslumbrar e expandir sem desculpa enquanto apazigua justificativas. Etâ que quero existir do tamanho de minha consciência aprisionada neste 1,70m de pura redundância no pensar abstrato e concreto. Eu a vi, a senti e quero fazê-lo novamente, mais e melhor sempre. Não me assusta a principio o inédito, mas ainda me encabulo em expectar o futuro das próximas vezes. Fantasmas do passado, queria mata-los, pois como se não mais vivem?...Orarei por mim, por ela, por eles, por todos nós, pois que nunca estou só, nunca estamos sós e eles nos vêm e falam e gritam e ouvimos apenas a sua influência, por sorte...Não os vemos ou sentimos e aquele pensamento reentrante, ou aquela idéia súbita que me traz a mente deixa os descobrir. Quero fazê-lo para aproveitar cada milésimo de segundo, cada pedacinho de nosso tempo e revivê-los em eternas linhas atemporais, colidindo lembranças com presentes e futuros, dando nós no que agora, foi e será. Às vezes tenho fé. Às vezes tenho medo. Às vezes tenho toda coragem e certeza que é possível de ter. Às vezes não me tenho por momentos, distante e inacessível...Um rosto de nariz pontudo e sorriso fácil. É isso que sou. Um sorriso fácil. E por ser fácil não é menos verdadeiro. Talvez meu sorriso seja minha verdade. Bom que agora sorrio para a vida, para os mortos, as coisas, animais, criaturas amorfas e seres intergalácticos cujas vibrações me são distantes e imaculadas...Sorrio de canto a canto, mostrando 32 dentes conservados sem ajuda profissional por 22 anos de pura higiene democrática. E tal brancura meio desgastada (pois me permito a franqueza) e meio irregular rasga-me a face sisuda e sorrio para tudo agora. Sinto vontade de mergulhar profundo...Quero segurar uma mão, quero pianos mais agradáveis, quero gente mais saudável. Quero muito e pouco preciso, pois tenho riso fácil. Quero tanto, tanto, tanto...Ontem e hoje de manha não queria nada até que Chopin surgiu para atrapalhar-me os estudos com sua melancólica melodia em acordes curtos e intervalos entremeados de arpejos gigantes, nada econômicos, que interrompem o silêncio pendulando firmes em subidas e decidas sofridas, cândidas...E um lindo noturno começa a sair, desabrochando em vida própria, sai de mim e vive pelos instantes que o toco, até que somos um e dois ao mesmo tempo. Ele me sabe e eu o sinto e arquiteto cada nuance de dinâmica a meu bel prazer...Ele me motiva e dele surge minha ambição de progresso. Na medicina não há muito sentimento quando se estuda a teoria, só a pratica te traz conflitos, alegrias e decepções...No amor não há raciocínio...Ou há...Não tenho certeza se sei o amor, prefiro saber as coisas, mas não saber é bom que deixa tudo mais livre e que as coisas relaxadas se apresentem sem se avexar de preconceitos...Um homem no deserto frente a outro. Nada além de um ser perante outro. Que tudo fosse assim sempre, mais é muito difícil...Quero ser um homem no deserto, livre de tudo...Aprendi muito. Não tenho lágrimas, mas chorar seria muito bom, de felicidade. E às vezes viver dói tanto e às vezes é tão bom que tudo no final se confunde e cansei de explicar, pois nem tudo se explica, nem tudo se pensa, nem tudo se sente.
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