Eu

quarta-feira, agosto 08, 2007

 
O Big-Bang foi há uns três meses. Pequenas massas de grande energia colidiram e originaram vida nova, diferente de tudo que havia antes. E de tão forte, intenso, foi tudo crescendo para os lados a dissipar-se segundo a segundo, direções opostas, tomando rumos designados pelos criadores do universo...E Deus disse: Faça-se a Luz. E Deus diz: Faça-se a Escuridão, e ela se faz negra, fria e tão triste que os pobres corações apaixonados se remoeram e apertaram e escorreram escuridão a fora, pelo oco intergalático criado quando os corpos se dissiparam.... E então não mais havia paixão. E então não mais havia amor: a alegria abriu-se à violência do ciúme, promessas e juras se perderam no tempo e os corações aflitos perderam-se em si mesmos...Ai de mim se já soubesse, que faria tudo de novo. O choque de duas pequenas massas que fez brotar vida nova em cada peito chôxu. O encontro dos astros. E tudo é tão rápido, tudo é tão cíclico como cometas em órbitas estelares. E tudo é tão caótico como a poeira do espaço (que flutua no nada e é de coisa nenhuma...). Assim foi o Amor. Explosão que dissipa pois não há força que controle, nem cabresto que amarre. Assim foi a paixão, que cria vida nova do nada e colapsa subtamente nos buracos negros do espaço sideral...E não há tempo, não há volta. E não há porque haver tanto espaço se agora os corpos estão tão longe...

terça-feira, janeiro 09, 2007

 

...

E segue a vida com seus improvisos... Abro o peito e aperto o olho lá distante, buscando um pouquinho de nitidez. O inesperado espreita e eu dissimulo, sorriso de canto, mão que alisa a testa e corre os cabelos...Não é nervoso, é indefinição que me maltrata. Choramingo, esperneio, sorrio bastante. O indefinido impede-me de pensar e como é gostoso pensar no adiante, por mais vagos que sejam os projetos. Só preciso saber...Abri tantos caminhos que me puxam lado por lado e bamboleio na rosa dos ventos ao sabor levemente adocicado do amanhã, degustando hora a hora o por vir...Êta diazinho distante que não chega nunca, êta amanhã que manda obscura notícia, implacável, maciço, indecifrável até o dia que...Farta lambança. Colher as vezes da mais trabalho que plantar...E então segue a vida, cheia de seus geniosos improvisos...


sexta-feira, junho 30, 2006

 

Novamente...

Escrevo com a madrugada acreditando que o silêncio me faz mais criativo. Creio que a insônia também ajuda, obrigando a procura de passatempos mais frutíferos que a cama vazia...Algumas tentativas e parar faz-se de uma dificulade, já que as palavras transbordam, impõe e se agrupam ordenadamente em paragrafos um tanto sonolentos... e sempre falam de mim (que confesso: me conheço melhor que qualquer coisa...) Dia desses prometo que escrevo pela manhã, desconcentrado pelos barulhos próprios do dia. Dia desses escrevo coisa mais útil, mais fina, que agora a escuridão sutilmente me pede o sono.

quinta-feira, abril 20, 2006

 

Canibalismo compulsivo

Há séculos que sigo andando pois ainda não me canso de cadenciar passos corridos, um frente ao outro, alinhados numa direção sempre reta (pois não existem objetivos que me obriguem a desvios inevitáveis...) Sigo caminhando para frente, imbatível. Gostaria de mudar a direção, de correr para os lados, tropeçar, parar e então girar indefinidamente infinitas vezes sobre meu próprio eixo, até não mais saber me equilibrar e então seguir cambaleante sem destino por todas as direções ao mesmo tempo...A vida é justa, e se ainda não vejo justiça é por que me falta inteligência suficiente para isso. Não tenho ideologias, sou vazio delas, não tenho partido, sou contra e a favor de quase nada. Cada vez que o amor acaba me sinto mais vazio que antes, e hoje sou um grande vácuo, vazio de tudo. Sei que passa, mas por hora quero é dormir dia e noite. Quero dormir agora (!) mas não consigo. De repente minhas certezas ficaram tão distantes e confusas que gostaria de deitar e pregar meus olhos em algum ponto distante do céu, esperando que alienígenas me abduzissem para qualquer galáxia desconhecida. Ou quem sabe cai uma estrela cadente e então não faço idéia do que pediria pois meus desejos se escorreram, minhas vontades engasgaram e agora meu coração é seco, murcho, chato...Talvez um grande meteoro de saturno invadisse as órbitas e enquanto fosse queimando e perdendo altitude caminhasse apressado para colidir com minha cabeça enorme. BUM! E continuo olhando para o maldito relógio, como se ele pudesse fazer algo de bom...Só soma mais e mais segundos de meu sono indo embora e a madrugada ficando mais e mais madrugada e eu ficando mais e mais impaciente a cada novo minuto. Fecho os olhos e a mente não se cansa de relembrar sons e imagens, o travesseiro incomoda mais que ajuda, o short também atrapalha (a roupa intima já me livrei há alguns anos...), minhas unhas também enchem o saco mas com elas eu sou deliberadamente cruel. Dilacerei uma a uma com meus próprios dentes (há meses não fazia isso) mas gostaria de arrancar progressivamente então todos meus cabelos e pele e em carne viva sair gritando pela rua deserta, cobrindo de sangue meu caminho mórbido, solitário e afoito até que a agonia aumentasse e eu já sem fôlego sentasse sem pele no meio, exatamente no meio da rua e passasse a arrancar músculo por músculo, distribuindo minha carne gratuitamente para todos os cães e gatos e qualquer criatura bizarra que se encontrasse desperta até que tudo que me sobrasse fosse meu esqueleto vazio, ossos e ossos e ossos, e ai então novamente sairia correndo pela madrugada, desta vez sem rastros, sem fôlego, sem cansaço, sem sono, sem agonia, sem nada. Meus ossos nunca cansam. Por milhares e milhares de anos eu correria sem sono por todo o globo e atravessaria a pé as Américas, Europas, Áfricas e todos os continentes, vezes e mais vezes, assombrando os despertos e confundindo os insones, e então deitaria por fim na grama e olharia para o céu novamente, esperando agora uma chuva forte, dilúvio catastrófico, que me lavasse de tanto suor, sebo, tanta tristeza imunda, sujeiras da alma que é o que me sobrou. Preencheria meus espaços vazios com a água dos céus, universo que chora, e talvez então eu escorresse e após séculos e séculos de chuvas e enxurradas as águas cósmicas me desintegrassem e reduzissem à poeira universal que tudo forma. Ai talvez tivesse um propósito. Parte de tudo, meus átomos estariam distribuídos em peixes, plantas, baterias dentro de eletrodomésticos portáteis e canetas esferográficas espalhadas por todo o globo. Argh, de quem são estes átomos imundos que me formam agora?!...Novamente olho para o relógio, objeto inanimado inescrupuloso, obsceno, tedioso e irritante que ri superior de minha incapacidade de administrar as horas do dia. Gostaria de atira-lo na parede, mas a raiva que me toma me tira mais o sono e deixa muito mais distante a possibilidade de que eu venha realmente a dormir hoje. Então resignado admito a superioridade de tal objeto, o relógio, para questões relacionadas ao tempo. E canso de tentar dormir, pelo menos por agora.


domingo, abril 02, 2006

 

Homem geográfico

Meio.
O centro da terra é quente e minha pele derrete a cada pequeno segundo. Meus pés grudam passo a passo no chão em brasa enquanto me desfaço em pingos, escorrendo meu corpo, suor de minha carne. A cada gota que se encontra com o chão do meio deste grande planeta sobe um vapor de mim mesmo, misturado à fuligem de meus órgãos, migalhas carbonáceas do que eu era há segundos atrás...Passado um tempo eu todo me derreto e quase me liquefazendo vou ascendendo como vapor do centro da terra, eu e meus carbonos, vasta nuvem espessa do que foi um homem. Quente, quente, quente. Subindo e subindo meus vapores vão umedecendo as entranhas da terra, gases estranhos se misturam solidários e quanto mais distante mais denso e mais frio. Compacto. Longo é o caminho para a superfície mas meus carbonos não me pesam tanto quanto o corpo de outrora com seus ossos e carnes e banhas e desbundes de órgãos e mais órgãos e cabelo e unhas e outras tantas bugigangas evolutivas que adquirimos durantes os últimos milhões de anos, até que me aventurei ao centro da terra...Sinto as moléculas mais e mais perto. Mais denso. Percebo a agradável temperatura ambiente e ganho o ar sob pressão, como esplendido gêiser humanóide! (sem horário pré-estabelecido pelo inusitado da situação). Agora vejo tudo de cima pois sou alta cumulus nimbus e não paro de subir flutuando em bolsões de ar indelicados que me empurram na direção da estratosfera terráquea. E me sinto mais e mais úmido, e frio, e novamente pesado (até mais que antes) mas não de carne; agora meus carbonos pré-históricos afogam-se em abundante água oceânica, como se fora novamente a grande sopa pré-histórica, coacervado pré-cambriano que a tudo deu vida e forma e gosto e tudo que se conhece desde baratas a jaqueiras imensuráveis e seres abismais. Pois não é que sinto o atrevimento das primeiras moléculas que se juntam e pulam inadvertidamente suicidas, mergulhando sem medo de incalculável altura por sobre o horizonte e provocando onda de risos e euforias em meus outros carbonos que se agitam com mais águas e agora não é que presencio verdadeiro suicídio em massa de mim mesmo, despencando lá de cima, lá de onde a vista não alcança e tudo se resume a pequenos borrões sem cor, pontos, e grandes espaços azuis, verdes e marrons, cada vez mais marrons. E vou ficando leve e me rarefazendo à medida que pingo meus carbonos agora no gélido clima das alturas atmosféricas, pingando e caindo em incalculável área, em solo, rio , mar, gente e tudo. Sou distribuído ao acaso pingando e chovendo em cima de tudo, até que por pequenas frestas geológicas e caprichos do terreno escorro até o centro, meio, miolo, âmago da terra, sucumbindo novamente ao calor lá de dentro...E tudo se repete...Eternamente.

 

Os deuses e os monstros

Mais uma vez peço socorro a Chopin e ele me acode com outro noturno melancólico, talvez até mais que o primeiro. Minha mão dói pois os arpejos são grandes e os acordes também que não há economia em se tratando de sentimentos. Pelo menos não deveria haver...Em seguida prometo que não vou mais toca-lo, pois minha mão dói...entretanto o encantamento que me toma impede-me de executar esta árdua e um tanto descabida promessa e cada vez que passo pela sala vou automaticamente ao encontro do piano. Sento. Abro-lhe a tampa, ponho ereta a coluna, mãos ao teclado e então começo com um delicado si bemol...e depois o que se segue é que o toco incontáveis vezes, pois sempre há o que se corrigir e o que se melhorar e o que se revisitar, até que minha mão manifesta protesto (indignada) e pede mais cinco minutos de descanso...Bach é para a cabeça, um deslumbre de intelecto privilegiado que faz cócegas no cérebro e esquenta o pensamento. Mozart é para se dar conta (boquiaberto) da perfeição das coisas, a beleza cristalina da simplicidade. È direto, nunca se esconde e nunca perde a doçura. Genial. Chopin é para assumirmos nossa condição de homens, imperfeitos, mal-acabados...Chopin é para a alma, a alma ferida, maltrapilha, faminta, o espírito que chora desprendendo-se do ser dilacerado por paixões, o punhal que gira infinitamente no meio do estômago a cada modulação, a dor e a tristeza, a angustia, a solidão de uma melodia sem esperanças...Ele sabe falar e repete a mesma coisa de milhares de maneiras diferentes, aumentando as palavras, dissimulando intensidades, disparando confissões de pecados e desilusões...Bem humano...pois quando tudo está perdido eis que surge nova melodia, em tom maior ou tonalidade distante...aquela chuva e um raio nas densas nuvens de cima a baixo, amansando a agonia de tristes notas. Chopin é para a alma. Realmente preciso tocar mais Bach. Preciso me encantar com a inteligência do homem e fazer cócegas no meu pequeno cérebro. Preciso pensar mais matematicamente. Bach era cristão, cada música uma oração. Pois que rezarei através de suas idéias em minhas teclas amarelas e notas desafinadas, meu canto incoerente reverberará por todo o resto e meu falatório barroco vibrará cordas e mais cordas e mais cordas e mais cordas em meu próprio corpo até minha mão cansada protestar em meio a tanto som...E eu a ouvirei, atento, fazendo silêncio. Disseram que a musica existe para desembrutecer o homem. Nenhuma arte, nenhum meio de expressão é tão eficaz quanto ela, tão direta. Mesmo que não se entenda o que se toca o corpo vibra e algo acontece. O sentimento transmuta-se no físico e no físico se sentimentaliza. Pode-se transmitir sentimentos...Quem sabe se cócegas no cérebro ou punhaladas no estômago, mas não é possível ouvir e ficar indiferente. A arte mais perfeita e mais subjetiva. Tocarei mais Bach amanhã. Bach é para arrumar os dedos e usar a cabeça. Finalmente usar a cabeça.

segunda-feira, março 06, 2006

 

Crise criativa

Gostaria de idéias para domar a própria carne, deixar o espírito, essência, se deslumbrar e expandir sem desculpa enquanto apazigua justificativas. Etâ que quero existir do tamanho de minha consciência aprisionada neste 1,70m de pura redundância no pensar abstrato e concreto. Eu a vi, a senti e quero fazê-lo novamente, mais e melhor sempre. Não me assusta a principio o inédito, mas ainda me encabulo em expectar o futuro das próximas vezes. Fantasmas do passado, queria mata-los, pois como se não mais vivem?...Orarei por mim, por ela, por eles, por todos nós, pois que nunca estou só, nunca estamos sós e eles nos vêm e falam e gritam e ouvimos apenas a sua influência, por sorte...Não os vemos ou sentimos e aquele pensamento reentrante, ou aquela idéia súbita que me traz a mente deixa os descobrir. Quero fazê-lo para aproveitar cada milésimo de segundo, cada pedacinho de nosso tempo e revivê-los em eternas linhas atemporais, colidindo lembranças com presentes e futuros, dando nós no que agora, foi e será. Às vezes tenho fé. Às vezes tenho medo. Às vezes tenho toda coragem e certeza que é possível de ter. Às vezes não me tenho por momentos, distante e inacessível...Um rosto de nariz pontudo e sorriso fácil. É isso que sou. Um sorriso fácil. E por ser fácil não é menos verdadeiro. Talvez meu sorriso seja minha verdade. Bom que agora sorrio para a vida, para os mortos, as coisas, animais, criaturas amorfas e seres intergalácticos cujas vibrações me são distantes e imaculadas...Sorrio de canto a canto, mostrando 32 dentes conservados sem ajuda profissional por 22 anos de pura higiene democrática. E tal brancura meio desgastada (pois me permito a franqueza) e meio irregular rasga-me a face sisuda e sorrio para tudo agora. Sinto vontade de mergulhar profundo...Quero segurar uma mão, quero pianos mais agradáveis, quero gente mais saudável. Quero muito e pouco preciso, pois tenho riso fácil. Quero tanto, tanto, tanto...Ontem e hoje de manha não queria nada até que Chopin surgiu para atrapalhar-me os estudos com sua melancólica melodia em acordes curtos e intervalos entremeados de arpejos gigantes, nada econômicos, que interrompem o silêncio pendulando firmes em subidas e decidas sofridas, cândidas...E um lindo noturno começa a sair, desabrochando em vida própria, sai de mim e vive pelos instantes que o toco, até que somos um e dois ao mesmo tempo. Ele me sabe e eu o sinto e arquiteto cada nuance de dinâmica a meu bel prazer...Ele me motiva e dele surge minha ambição de progresso. Na medicina não há muito sentimento quando se estuda a teoria, só a pratica te traz conflitos, alegrias e decepções...No amor não há raciocínio...Ou há...Não tenho certeza se sei o amor, prefiro saber as coisas, mas não saber é bom que deixa tudo mais livre e que as coisas relaxadas se apresentem sem se avexar de preconceitos...Um homem no deserto frente a outro. Nada além de um ser perante outro. Que tudo fosse assim sempre, mais é muito difícil...Quero ser um homem no deserto, livre de tudo...Aprendi muito. Não tenho lágrimas, mas chorar seria muito bom, de felicidade. E às vezes viver dói tanto e às vezes é tão bom que tudo no final se confunde e cansei de explicar, pois nem tudo se explica, nem tudo se pensa, nem tudo se sente.


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